O governador Geraldo Alckmin não está negligente ou indiferente a uma campanha política mais objetiva para pleitear novamente a Presidência da República. Ele está intencionalmente mais discreto, por uma razão, que poderia ser classificada como técnica.

O silêncio técnico

28/02/2018 | 20:50

O governador Geraldo Alckmin não está negligente, nem abúlico, nem indiferente a uma campanha política mais objetiva para pleitear novamente a Presidência da República, dizem os especialistas da sua equipe. Ele está intencionalmente mais discreto, por uma razão, que poderia ser classificada como técnica.

O apresentador Luciano Huck não desistiu do sonho de ser candidato a presidente da República, o que ele fez foi desistir da articulação explícita neste momento, inclusive de dizer, mesmo na intimidade, que é candidato. Isso estava lhe trazendo problemas desnecessários e insolúveis por enquanto. O que não significa que não seja candidato, quem sabe num dia não muito distante.

O que se destaca nas articulações políticas atuais é que os candidatos possíveis estão se adaptando às evidências produzidas pelo eleitorado: quem se lançar agora não chegará ao fim, ou terá dificuldades adicionais de sucesso. Há muitos já ficando pelo caminho e, teoricamente, estaria cedo para isso. Ciro Gomes esconde-se, dando maior peso à sua campanha em rede social, na internet, para evitar chamuscar-se em declarações sob pilotis. Jair Bolsonaro já esteve mais exposto, agora tem colocado seu coordenador de programa como escudo de celeuma. Marina Silva some do cenário como tragada pela ausência de discurso e proposta. Luiz Inácio Lula da Silva continua a falar muito, mas inegavelmente menos do que antes de ter sua candidatura pendurada na Justiça.

Esses candidatos devem ter constatado que a eleição de 2018 não começou para valer. E quem lhes informou disso foram as pesquisas, segundo as quais o eleitor ainda não está interessado no que esses políticos têm a dizer.

Uma maioria, 65% dos consultados, são contra todos os candidatos no cenário da campanha. Portanto, o candidato Lula teria 37% não do eleitorado, mas dos 35% que já admitiram ter uma preferência. Ou seja, Lula tem 9% de eleitores que estão com ele ficando solto, sendo preso, ou em qualquer outra situação.

Bolsonaro tem 15% dos 35% decididos, ou seja, tem 4% do eleitorado que votariam nele também em qualquer circunstância. Os 65% de indecisos ainda não participam dessa eleição. Portanto, quem tiver juízo não acelera sua campanha agora.

Alckmin não é adequado nem tem temperamento para uma campanha definida como atlética, barulhenta, tal como a de Lula, de Bolsonaro, de Ciro Gomes, como seria a de Arthur Virgílio se com ele disputasse a prévia do PSDB. Ele não é de luta livre, e assim dá a impressão de estar sem apetite, mas na verdade está educadamente contido, silencioso.

Seus conselheiros defendem o modelo de operação política de Alckmin, na suposição de que esteja aproveitando esse período de discrição extrema para intensificar articulações partidárias, alianças, escolher candidatos de apoio nos Estados, consolidar sua liderança no partido e formular um discurso a que o eleitorado preste atenção.

Numa entrevista à TV Bandeirantes, no último domingo, Alckmin mostrou que o discurso, combinado com alguns planos, já lhe permitem uma boa linha de argumentação que poderá praticar em campanha. Com dados na ponta da língua sobre as injustiças na Previdência Social – é eloquente o que mostra como média dos valores da aposentadoria do trabalhador privado e a média dos servidores públicos, uma proporção de mil para até 24 mil entre uns e outros, e o combate à criminalidade, que resultou em redução significativa da bandidagem em São Paulo, para falar de dois problemas que sensibilizam o eleitorado, ele acredita ter o que oferecer ao Brasil.

Por mais que se diga que esta será uma eleição de biografias e não de realizações e eficiência executiva, a certeza arrefece diante das inúmeras e intensas citações sobre o que o governador acredita ter feito em São Paulo e que representam soluções aplicáveis a todo o Brasil.

Devagar se vai ao longe parece ser o aforismo da sua campanha no momento. Alckmin opera uma isenção ideológica que esfria o seu discurso, sem causar emoções à direita ou à esquerda. Evita a polarização, rígida sobretudo no meio intelectual, torna-se mais livre mas é menos debatido.

Depois, o silêncio do Alckmin está ligado também à necessidade de compreender o que o eleitorado quer ouvir. Os 65% de indecisos que as pesquisas apontam hoje podem ser, num livre exercício de alguns políticos do seu grupo, uma extensão dos grupos de 2013, uma inquietação até hoje não explicada, nem mesmo na campanha de 2014.

O que se sabe de concreto é que queriam eficiência do serviço público, foi assim que surgiram, exigindo passe livre, depois escola, em seguida saúde. O eleitorado de 2018 pode estar também nesse caminho.

Faz bem a Alckmin manter o seu silêncio até que descubra o que pode oferecer e o que o eleitorado quer.

O ex-deputado Paulo Delgado, sensível observador das campanhas nacionais, já tem definição para a de 2018: “Esta eleição não é de lançamento de carro novo, é de um bom usado de qualidade”.

O silêncio de Alckmin pode ser o da costura partidária, o da redução do número de partidos adversários que criarão candidaturas para servirem de escada, de preparação do discurso ou, de caso pensado, não se queimar por antecipação com os eleitores. Um pouco do que têm feito, com menos resultado, Michel Temer, Rodrigo Maia, Jair Bolsonaro, Ciro Gomes e Lula.

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